Duas noites atrás, voltei de metrô pra casa, como sempre, mas em meio a uma baita gripe nesse fim-de-semana Taístico (o que é bom), e uma onda desesperadora de trabalho que eu não sei fazer. Na parada seguinte à que entrei entrou uma senhorinha chinesa beeeeeem pequenininha. O trem, pra variar, estava cheio, e era um daqueles trens esquisitos que foi desenhado com muito espaço, poucos assentos e poucos lugares pra se segurar. Ela não conseguia nem alcançar os puta-merdas altos. Daí ofereci o braço. Pra qualquer um que não mora em NYC, uma cidade supostamente muito pouco acostumada com gentilezas, isso vai parecer completamente corriqueiro, mas ela agradeceu, me deu o braço e perguntou “so, how are you?”.
Tivemos uma conversa completamente bobinha e superficial que durou apenas o caminho entre uma parada e outra, mas foi o suficiente pra eu voltar pra casa meio feliz.
E chega de novo esse ano o dia de andar na linha 6 do metrô sem calças, organizado pelo grupo Improv Everywhere:
REQUIREMENTS FOR PARTICIPATION
1) Willing to take pants off on subway
2) Able to keep a straight face about it
**THIS IS A PARTICIPATORY EVENT. DO NOT SHOW UP UNLESS YOU PLAN TO TAKE YOUR PANTS OFF. THIS INCLUDES NEWS MEDIA**
DETAILS
When: Saturday, January 12 at 3:00 PM, Sharp! (Over by around 5:30)
Bring: A backpack and a metro card.
Do not bring: A camera (don’t worry we are taking pictures)
Wear: Normal winter clothes (hat, gloves, etc)
Complete logistics below:
HOW IT WORKS
We will assemble in Foley Square at 3 PM. Please be on time. Feel free to be early.
When we’re organized, we will all head down to the Brooklyn Bridge 6 Train stop together. Do not talk to others once you enter the subway system. No one knows each other. We will wait for a train to arrive on the uptown side of the tracks and all board our assigned cars (follow your team leader)….
Sit in the car as you normally would. Read a magazine or whatever you would normally do. Your team leader will have already divided you into smaller groups, assigning your group a specific stop where you will depants. Sit near your group.
As soon as the doors shut at the stop before yours, stand up and take your pants off and put them in your backpack. If you’d like to use a briefcase, purse, grocery bag, or whatever instead of a backpack that’s fine too. You are responsible for your own pants and they should be with you at all times. If anyone asks you why you’ve removed your pants, tell them that they were “getting uncomfortable” (or something along those lines.)
Exit the train at your assigned stop and stand on the platform, pantless. This is a new change for No Pants 2k7. You will wait on the platform for the next 6 train to arrive. Stay in the exact same place on the platform so you enter the next train in the same car as you exited the last train.
When you enter , act as you normally would. You do not know any of the other pantless riders. If questioned, tell folks that you “forgot to wear pants” and yes you are “a little cold”. Insist that it is a coincidence that others also forgot their pants. Be nice and friendly and normal.
We will exit the train at 125th street. Pay attention so you don’t miss this stop. We will then repeat the mission back down to Union Square.
You can wear fun underwear if you like, but nothing that screams out “I wore this because I’m doing a silly stunt.” Wear two pairs of underwear if it makes you feel more comfortable. Don’t wear a thong or anything else that might offend people. Our aim is to make people laugh, not piss them off.”
Cost: FREE!
E a segunda parte da noite de sábado foi mais assustadora ainda.
Pegamos o metrô, Jon e eu, pra voltar pra casa, isso lá pelas 2, 3 da manhã. Tudo ia muito bem até que dois caras, um negro e magrelo e um branco com uma menina entraram de outro vagão para o nosso brigando horrores. O cara branco já tinha levado porrada e queria que tudo aquilo acabasse logo, a menina dele ficava se botando entre ele e o magrelo, e o magrelo estava completamente enlouquecido tentando bater no cara branco, e quase batendo na menina, por algum motivo que nos escapou — mas devia ser mulher. Jon se levantou pra tentar apartar uma briga que seguia ignorada pelos outros no trem, uns segundos depois outras pessoas se animaram e foram lá ajudar ele.
Numa jogada brilhante, eles conseguem segurar o magrelo enlouquecido e deixar que o branco e sua menina desçam numa das paradas. Um negro enorme (que ele é negro e enorme são fatos importantes para a história) que apenas observava e entrou pra apartar a briga bem mais tarde, segurava e discutia com o magrelo, que perguntava porque infernos tinham deixado o cara escapar. E o grandalhão peitava e perguntava, hein, o quê, o quê que tu vai fazer, eu sou negro também, etc. O Jon, a essa altura, já tinha voltado a sentar, e é aí que entra a importância de que os dois eram negros e que essa história ocorre em NYC: um branquelo como o Jon não se mete numa briga dessas sem sair mal, por melhores que sejam as intenções. E os dois continuam discutindo, até que o grandalhão saca uma ARMA PRA TENTAR ACALMAR OS ÂNIMOS e continua perguntando, o que tu vai fazer, hein?!
E eu nunca comecei a chorar tão instantaneamente na minha vida. Não há o que fazer. A namorada do grandalhão se desespera e tira a arma da mão dele, jogando no banco do trem. E ela fica ali, enquanto os dois discutem. O trem pára numa estação e saímos correndo.
E, comigo ainda chorando, fica evidente a importância do cara ser enorme na história: ele poderia facilmente ter enchido o magrelo de porrada e encerrado o assunto. Por que infernos ele foi tirar uma arma na frente de um cara claramente surtado? Daquele tamanho e deve ter um pinto minúsculo.
Por outro lado, tem essas gangues de NYC que são de african-americans (ou seja, negros que estão nos Estados Unidos há várias gerações) e hispânicos, e que moram em determinadas regiões, incluindo o fim da linha daquele trem. E, perto de gangue, só andando armado mesmo.
Esperamos pra pegar o próximo trem, e nisso passa um policial. Contamos a história pra ele, meio sem esperanças de que vá resolver alguma coisa a essa altura, ele faz algumas perguntas rápidas e parte pra registrar a ocorrência, ou sei lá o quê. Depois de uns 20 minutos pegamos o próximo trem.
5 estações depois, na Atlantic Avenue, uma estação de trem enorme que é hub para nada menos que 11 linhas, o nosso trem é revistado por uma frota de uns 10 policiais. Achamos bastante eficaz, puxa, estão olhando todos os trens logo depois que avisamos! Abordamos um deles e descobrimos que eles acham que aquele trem é onde está o cara armado, e que não olharam o trem que passou antes desse por ali. Eles encerram as buscas e tudo está perdido, já deve fazer uma meia hora desde a última vez que vimos aquele maluco armado e o magrelo. So much for NYPD.
Jon tira o casaco, com medo de ser identificado pelo magrelo na saída da estação onde descemos, e onde é bem possível que ele more (contei que moro num bairro negro? Pois é). Eu subo pra rua primeiro, não tem ninguém e vamos pra casa sãos e salvos.
Ontem eu tava saindo do trabalho em direção à Grand Central Station, que fica a umas 8 quadras curtinhas, pra ir pra casa quando ouvi que alguma coisa tinha acontecido por lá — uma conversa furtada sobre gente correndo e gritando. Saí pra rua e resolvi comprar uns vestidos antes de chegar lá, e na fila do caixa tinha uma mulher coberta de fuligem comprando chinelos e dizendo que, na correria, ela perdeu os sapatos. Ela ouviu um estrondo, depois fumaça pra todo lado e gente gritando GUNMAN, GUNMAN. Na rua de novo, percebi que centenas de pessoas falavam no celular mais do que normalmente (algumas também cobertas de fuligem), e exclamavam a palavra CHAOS. Tentei ligar pro namorado pra ver se ele poderia olhar o que tava acontecendo, mas não completou a ligação, creio porque as operadoras estavam lotadas de gente contando o que tava acontecendo. Subi até o escritório de novo e na TV dizia que era um cano de vapor (me pergunto para que serviria esse, a sério) que estourou, e, pouco antes disso, era um transformador que caiu. A minha linha de trem foi interditada, e com essa baderna somada à chuva mais torrencial que já vi na minha vida durante a manhã de ontem, demoraria 3 horas pra voltar pra casa de qualquer maneira. Perdendo todas as esperanças, finalmente consegui ligar pro namorado e convidei pra tomar uma ceva enquanto o resto se espremia em trens parados pela chuva e pelo re-routing de outros trens.
Uma pessoa morreu de ataque cardíaco e outras 20 ficaram feridas, provavelmente mais pela correria do que pelo acidente em si.
Que dia. Esse foi o assunto de ontem. Ninguém no escritório atina muito que eu sou brasileira, e eu não digo muito que venho de Porto Alegre, porque é um nome difícil pra americano entender, e ninguém vai lembrar depois mesmo. Então ninguém comentou sobre o acidente em Congonhas. Isso foi bastante irreal e triste, pois soube pelo MSN Messenger que todas as pessoas que conheço em Porto Alegre conheciam alguém que conhecia alguém que estava no avião. Pelo menos o Jon, que foi iniciado em ciências políticas brasileiras e dementes com Manda Bala, compreendeu a minha revolta. Ah, o Walter também.
Que lixo.

A prefeitura de New York lançou nessa semana de Valentines as camisinhas oficiais da cidade, num esforço para encorajar o uso utilizando a marca da cidade. Mas nada de I (coração) NY. O layout é inspirado nas letras e cores das linhas de metrô daqui, cujo sistema, com suas 24 linhas de trem, é uma das coisas que os locais mais amam/odeiam/pensam a respeito. É NYC total.
Fui numa peça chamada Invincible Summer, criada por um cara chamado Mike Daisey, e era uma série de monólogos engraçados e trágicos a respeito da cidade (entrevista com um trecho da peça aqui), muitos deles tomando como ponto de partida coisas clássicas da cidade como o metrô, o verão insuportável, o 9/11. E eu já andava pensando como eu pensava no metrô, e como os outros pensavam nele também, e sabiam quais trens têm a entusiasmada mensagem gravada STAND CLEAR OF THE CLOSING DOORS PLEASE!, quais têm os bancos laranja ou cinza, ou um piloto insano que não pára de falar no auto-falante. Ainda que o metrô facilite a vida e nos leve pra absolutamente todo canto, se passa muito tempo dentro dele.
O Mike, em um dos monólogos, de alguma maneira que eu não posso transcrever literalmente porque esqueci, disse que todas as outras cidades da América estavam se desenvolvendo, indo pra algum lugar, se preocupando em ficar melhores. NYC era a única cidade que era suja e cheia de problemas, mas que tinha a cara-de-pau de criar uma campanha (durante os anos 70, no meio de uma onda de violência) declarando que todo mundo ama NY. NY não quer mudar, nem melhorar, porque ISSO é NY. E por isso morar em NY é mais ou menos como comer a Paris Hilton; você não se concentra em comer ela, mas fica se olhando de fora pensando o tempo todo “Eu tou comendo a Paris Hilton! Eu tou comendo a Paris Hilton!”. E a Paris? Passa o tempo todo pensando “Eu SOU a Paris Hilton! Eu SOU a Paris Hilton!”
Me lembra bastante Porto Alegre isso tudo, só que bem mais absurdo. Eu já me peguei várias vezes imaginando um doido berrando dentro de um Circular 3 em Porto Alegre, e alguém exclamando com um sorrisinho deslumbrado frente à situação bizarra: “Ah, isso é Porto Alegre!”. Eu escuto “this is New York…” TODOS os dias. Ou uma camiseta Eu (coração) Porto Alegre — só turista teria isso lá, certo? Aqui não é tão coisa de turista a tal da camiseta, ou a tal da atitude. Sinatra cantando “Porto Alegre, Rio Grande do Sul”. Longas conversas sobre porque o T-9 é o melhor ônibus que existe. Heh. Será que Porto Alegre era mesmo assim e eu me esqueci? Acho que era…
Mas, apesar de tudo, a estratégia da camisinha municipal funciona pra mim; quero, é MEO, medá! AMO o metrô. Sobre a Paris Hilton? Não tem como não nutrir certa simpatia por ela. Suja, burra, poser, rica e todo mundo quer saber o que ela anda fazendo, mesmo que seja nada, como sempre. Porto Alegre? É uma boa cidade, não me venham com ranço.
Depois de reformas nas linhas e estações e problemas com os semáforos, a maior causa de atrasos no sistema de metrô de NYC são meninas que pegam o trem em jejum de horas ou até dias, seguindo dietas malucas para emagrecer. Ficam enjoadas, desmaiam e o condutor tem que ficar com elas até que chegue ajuda, muitas vezes bloqueando os outros trens.
(é uma matéria super divertida, insólita e provavelmente é verdadeira, mas é certo que as reformas são responsáveis por 90% dos atrasos.)
E, por falar em metrô: existe a opção de comprar single rides por US$2 cada, ou um Metrocard que dá pra andar à vontade durante uma semana (US$24) ou um mês (US$76). Por estar usando o metrô de 2 a 3 vezes por dia em média, compro o de um mês. Mas, estabanada como sempre fui, perdi meu cartão esses dias, depois de uns 15 dias de uso. Fui instruída a telefonar pra MTA e passar o número do cartão de crédito que usei para comprar aquele Metrocard. Eles cancelaram o cartão perdido (cujo número de série foi encontrado através do número do meu cartão de crédito) e, em questão de 3 dias, me depositaram de volta o equivalente ao restante dos dias que não usei o cartão.
Além disso, há pouco tempo descobri que esse cartão também permite andar à vontade de ônibus dentro da cidade.
Hoje, no metrô, vi minha primeira unnatended package. Não satisfeita, vi duas no mesmo dia!
Aqui no metrô existe uma campanha anti-terrorismo cujo slogan é o título desse post. Manda as pessoas avisarem os funcionários do metrô se virem QUALQUER coisa suspeita, entre pessoas agindo de maneira estranha (como um cara tocando sax muito mal) e sacolas abandonadas. É, qualquer coisa, sem medo de ser feliz.
A primeira unnatended package devia ser uma instalação pop: um monte de latas de sopa Campbell em cima de um dos bancos. Numa estação bastante secundária, ninguém por perto. Não avisei nenhum funcionário do metrô.
A segunda era na estação Times Square/42nd street, uma gigante e muito movimentada que tem aqui. Estava em cima do banco em que eu estava sentada dentro do trem, era uma sacola de plástico preta com bastante volume. Era o cúmulo do terrorismo, sério. Confesso que deu um medo quando me liguei que aquela estação é super grande. Antes que eu decidisse avisar alguém, chegou um funcionário do metrô, olhou ela mexendo com uma garrafa de água, sem tocar, e, percebendo que não era nada, levou embora.


visão da linha Q de metrô, uma das que liga Brooklyn a Manhattan e uma das que atravessa o rio por cima da água.
Tinha um desses quando peguei o metrô ontem de manhã. Ele devia ter uns 60 anos, tava vestido como uma pessoa normal (a maior parte dos malucos e homeless aqui se veste como eu e você), tinha ares de quem foi muito bonito quando era mais jovem. Tava sentado e falava muito alto e para todos, como se fosse um guia turístico daquele vagão, e contava curiosidades sobre o metrô de NY. Ninguém dava bola — ninguém dá bola nunca por aqui.
Dizia que no mesmo dia do naufrágio do Titanic teve uma colisão horrorosa de trens do metrô que matou quase mil pessoas mas foi abafado pelo acidente do navio.
Aqui tem um cartão de metrô que dá viagens ilimitadas por uma semana ou um mês, e é bem barato pra quem anda muito. Ele aconselhava as pessoas a, na saída do metrô, passar o cartão pra alguém que estivesse entrando andar de graça (quando se passa o cartão, ele fica inválido por 20 minutos, pra evitar que eu passe um monte de gente comigo). Algumas pessoas vendem essa passada de cartão, e obviamente isso é ilegal, mas ele disse que ninguém seria preso se não pedisse dinheiro por isso.
Ele pedia a todos que, se alguém visse alguma sacola ou bolsa abandonada no metrô, que não era pra fazer nada, só deixar que os faxineiros de Coney Island recolhessem. Não tem dinheiro nem bombas nessa sacola, ele dizia, deixem de ser idiotas e não incomodem os funcionários do metrô com essas bobagens.
Ele viu quando eu tava tentando descobrir em que estação estávamos e me falou qual era. Bastante amável.
Pô, e a única coisa que eu acho que tinha de errado com ele é que ele tava falando sozinho.