Tá ligado que o Radiohead lançou um CD novo né?
E que ele tá disponível pra download no site deles.
Pelo preço que você quiser pagar.
É que rolou uma lagriminha aqui, achei bonito que algumas pessoas estão tentando entender a internet, finalmente. Tomara que dê certo e revele novos business models.
Cheguei ontem no show da Mirah e qual não foi a minha ingenuidade ao descobrir que um show dela é basicamente uma festa lésbica: acho que uns 90% da platéia era mulher, em grupos de 3 ou sozinhas. Alguns namorados também estavam presentes, e apenas um cara que eu desconfiei estar sozinho. Mas não é sobre a platéia, e nem sobre a Mirah (que é uma gracinha, cantou maravilhosamente bem e me mandou pra casa feliz e calminha) que eu queria falar. Eu queria mesmo falar é que a banda que abriu pra Mirah no Bowery Ballroom ontem, onde todas as bandas indie ou não querem tocar, se chama Magnoliah. É composta por duas meninas de, no máximo, 11 anos de idade que se alternam na bateria e na guitarra. Rock’n'Roll seco e pesado e bem bonitinho.

Fui pra uma fila de show no início da tarde do último sábado pra algo bastante incomum. A banda japonesa de avant-garde rock The Boredoms realizou uma espécie de happening no dia 7/7/2007 das 7:07 da noite até o sol se pôr. O evento aconteceu num parque em Dumbo, no Brooklyn, que fica na beira do East River, entre a ponte do Brooklyn e a de Manhattan, e consistia em uma orquestração, que eu creio improvisada, de 77 baterias posicionadas dentro de uma espiral. Observando um pouco, entendi que uma bateria seguia a outra de forma que a primeira inventava algo e a próxima entrava imitando na sequência seguinte, até fechar todas as baterias. O líder do Boredoms completava com uma guitarra que na real eram umas 4 guitarras que ele tocava com um cabo de vassoura, mais alguns sons eletrônicos.
Desculpa, eu não sou assim. Eu não fumo maconha, e estava sóbria na ocasião. Mas foi tão sensacional que eu não tenho referência pra explicar o que eu vi, apenas descrições vagas e hippies como “transcendental” e “sensação de que o barco passando pelo rio naquela hora estava ali pra fazer parte do show, e a ponte do Brooklyn também”.
Não apareceram bons vídeos disso ainda, mas esse hippie que fica filmando o céu e gravando os sons por um minuto é o do meu momento favorito do show:
Ok, deixa pra lá. Pronto, parei.

No terceiro dia nada de traumático aconteceu.
Quanto ao festival, o último acho que foi o melhor dia. The Kooks foi OK, Explosions in the Sky é um saco, Willie Nelson é perfeito, Happy Mondays é pura diversão, Air foi super francês se atrasando mais de meia hora e sendo terminados na quarta música pra que o DAMIEN RICE pudesse tocar, Placebo é tri, Kaiser Chiefs eu não tenho certeza.
O bom é que o festival foi tão bem organizado que todos estavam muito de bem com a vida. Maconha pode. Álcool, só dentro dos beer gardens em horários estabelecidos. Bate a meia-noite e queremos todos vocês fora daqui já. Nenhuma confusão semelhante ao que andava acontecendo no Fórum Social Mundial. E estamos falando de umas 100.000 pessoas por dia ocupando o mesmo espaço. Sempre dá merda quando tu não pára de servir cerveja, em qualquer lugar do mundo.
Não me pergunte do Rage Against. Eu já estava me sentindo meio velha demais pra aproveitar um festival de música de maneira apropriada, e resolvemos sair antes do fim do show para dormir mais cedo e começar a peregrinação a NY às 5 da manhã do dia seguinte. Que consistiu em engarrafamento apavorante em Los Angeles e a quase perda de um vôo matinal. Fantástico.

No dia seguinte decidimos que eu estava em condições de dirigir, e que seria mais fácil estacionar por lá e voltar, bastava que eu não bebesse. Só que o carro não ligava, e a chave ficou presa na ignição. E estávamos prestes a perder o show do Andrew Bird. O do Travis eu já tinha desistido, não tinha jeito de chegar.
Harry, o cara da assistência técnica, crê que eu matei a bateria do carro de alguma maneira, e pode ser que não adiante carregar de novo. Ele faz uma ligação direta e eu dirijo o carro até a locadora para pegar outro. Harry é um senhor com sotaque texano que não gostou de NYC, e pensa QUALQUER COISA da gente. Ele aconselha que eu dirija com mais velocidade, pois o policial que passou por nós me olhou muito feio e certamente pensou que eu estava bêbada. This is California, the state of fruits, nuts and flakes.
Sinto falta do carro funerário. O carro novo é cinza, normal e sem graça. Tanto que perdemos ele no estacionamento do show todos os dias.
Mas, sobre o segundo dia de Coachella: Andrew Bird tocou as duas únicas músicas que eu queria ouvir no mundo, Arcade Fire, Gotan Project e The Good, The Bad and The Ugly, “a banda do cara do blur”, foram sensacionais. Ahn, não presta falar de música, verdad?


Começou no dia 20 de abril, quando comprei passagens de avião para Los Angeles para o dia 26, sem saber ainda se conseguiria ingressos para o festival e se meu chefe liberaria uns dias de folga. Jon, o namorado, comprou suas passagens em seguida. Um dia antes de viajar consegui os ingressos abaixo do valor anunciado com um dos pobres coitados que, na última hora, não poderia ir.
Ainda havia 2 problemas: um era que o Jon não tem carteira de motorista. Eu tinha a minha do Brasil, que vale por aqui sem a necessidade de tirar uma carteira internacional, então poderia chegar em Los Angeles à meia-noite, alugar um carro no meu nome e dirigir-lo por 150 milhas até Indio, California, onde acontece o festival. Só que, tipo, eu só dirigi umas 30 vezes na minha vida. Nenhuma delas nos U, S and A.
O outro problema era achar um lugar pra dormir. Por que eu não reservei um hotel pela internet? Beibi, todos os quartos disponíveis pela rede naquela região estavam reservados desde o ano passado. Os ingressos para o acampamento estavam esgotados também, e ninguém tinha barraca.
Eu contei que Coachella fica no deserto? Não, né?
Pois eu já estava em frangalhos em New York, dentro do avião, chorando por uma hora e meia de medo de dirigir e saudades dos meus pais. O Jon tem medo de avião. Só faltava mesmo um sobrinho hiperativo para que fôssemos eleitos o maior desastre aéreo depois de 9/11.

5 horas mais tarde vemos que é muito fácil alugar um automóvel em Los Angeles, praticamente obrigatório. Nos deram um que parecia um carro funerário, inclusive. 6 horas depois disso, e eu ainda estava dirigindo, 24 horas acordada e nervosa, a 70km/h numa estrada cheia de caminhões, cujo limite era 110km/h. Nenhuma vaga em nenhum hotel. Eu vejo um campo de cataventos na estrada e só dias depois confirmo que não era miragem.

Acabamos achando um hotel a uns 40km do local do show. Resolvemos que eu não devo dirigir pro show à tarde, que é melhor ir até lá de ônibus. E descobrimos que os jovens moradores do deserto saíram da escola antes de terminar os estudos, gostam de piercings, maquiagem escura, franjas compridas e fumar maconha.
Ao descer do ônibus, temos uma boa distância pra caminhar no sol do deserto às 2 da tarde. Mas a temperatura é amena essa época, uns 35 graus.
Não vou falar muito dos shows. Foram todos tão bons que eu nem tenho histórias específicas pra contar. No primeiro dia vimos Tilly and The Wall, Rufus Wainwright (que pensa que é a Judy Garland), Of Montreal (que troca de roupa 3 vezes em 40 minutos e pensa que é a Cher), Jarvis Cocker (ótima surpresa), um pouco de Interpol, um pouco de Sonic Youth, um pouco de Jesus and Mary Chain (não percebi que a Scarlett Johannson cantou com eles) e *ah* Björk. O único problema era decidir qual dos ótimos shows queríamos ver dos que aconteciam simultaneamente nos 4 palcos do festival.
Uma van nos levou de volta ao hotel. Esperamos uma hora por ela, mais ou menos, e descobrimos que ela estava a 2 milhas do local do show. Baita exercício. E o motorista da van achava que estava liderando uma excursão à Disney, o que foi péssimo.
Vai agora lá no myspace do Andrew Bird e escuta a Heretics, do CD Armchair Apocrypha, lançado na semana passada. Dá pra baixar direto do site também. Verei ao vivo em maio. Invejem.
Por falar em show, vi The Decemberists na quarta passada, em Jersey City. Fiquei toda nostálgica porque sou uma indie que relaciona músicas com épocas da vida, e me lembrei muito de 2004. Lembrei do dia que eu fiz umas fotos e eu tava tão inspirada, do primeiro trago que eu tomei no meu apartamento em Porto Alegre, e do último também. Mesmo que eu esteja um pouco de saco cheio de Decemberists, foi bom ver The Mariner’s Revenge, épico de 8 minutos, ao vivo. Só foi chato quando ele tocou The Smiths e algumas pessoas ficaram de pé durante essa performance enquanto o resto do pessoal tava sentado (foi num teatro mesmo). Eu posso ser indie, mas tem limite. Pedir ajuda é mais digno.
Eu tenho certeza que Heretics, no futuro, vai me lembrar pegar um ônibus e ir até New Jersey num sábado de sol de ressaca. Mesmo que não seja o estado mais legal dos EUA, eu gosto de toda a função que parece uma viagem, mas não é, de pegar o ônibus e ver Manhattan de New Jersey, e porque lá tudo é mais calmo do que aqui. Como eu sou sentimental.
Vale avisar que eu nunca fui num show de punk-rock, mas imagino que seja igualzinho ao punk cigano performático do Gogol Bordello que vi no Irving Plaza ontem. Abaixo uma foto do momento em que o ucraniano Eugene Hutz sobe com uma fã num tambor enorme segurado pela platéia acima de suas cabeças (não, ele não tá no palco). Quando tocaram Start Wearing Purple, eu pensei que alguém ia morrer.
O sotaque ucraniano é fake, o membro “latino” do grupo usando uma camiseta do Chapolin é fake, a “ciganice” nasceu e mora há anos em Lower East Side*. Mas é MUITO divertido.

* As pessoas aqui são de um bairro como no resto do mundo seriam de uma cidade. Quem mora em Lower East Side não sai muito de lá.