Estou no Maine, tirando umas férias curtinhas. O Maine é a Vacationland oficial, de acordo com o que as placas de trânsito do estado declaram; se no inverno o estado é relativamente vazio e frio, no verão as casas de veraneio enchem de gente que passam os dias tomando banho de lago, andando de lancha, caiaque, jet-ski e fazendo esportes de CAMPO. Maine = capital do acampamento de verão para jovens. E “cheio de gente” é relativo, pois não vi nenhuma Tramandaí acontecer.
Na quinta, meu primeiro dia aqui, choveu o dia inteiro e não fizemos nada. No fim do dia resolvemos catar um cinema e assistir ao Dark Knight de uma vez, que já tava ficando ridículo. Procurando pelo segundo cinema, já que o primeiro não tinha mais sessões, lá pelas 8 da noite encontramos muito por acaso um DRIVE-IN. No meio do nada, sem muita bandeira, construído toscamente no meio de um campo aberto entre as árvores. A sessão era Wall-e seguido de Dark Knight, e não tinha hora certa pra começar “porque é drive-in, sabe como é”. Estacionamos o carro de costas pra tela e sentamos no porta-malas, fazendo igual à família que estacionou na nossa frente e jogava bola enquanto o filme não começava.
Muita emoção esperando anoitecer pro filme começar de uma vez. Apesar de toda a comida da janta (cachorro-quente na grelha, u-hu), compramos pipoca e REFRIGERANTE e tocamos o horror anos 60. O som do filme era transmitido por FM, mas os donos do local não tiraram os postes com cestinhas que guardavam as caixas de som que deveriam ser acopladas no carro, o que ganhou o nosso respeito. Lá pelas tantas Wall-e começou e foi a animação mais excelente que já vi, obviamente.
Entre Wall-e e Dark Knight rolou um intervalo de 10 minutos FANTÁSTICO animado pelos vídeos de intermission time de épocas em que drive-ins eram comuns. Entre “go to the church every week - exercise your freedom to worship at your desire” e “get SOFT DRINKS at our refreshment center NOW”, um coutdown bizarro rolava pras pessoas se acomodarem logo pro próximo filme. Algo que só podia acontecer num drive-in antigo cujos únicos funcionários são o dono e sua mulher, ou a dona e seu marido.
Saímos de lá à 1 da manhã. Dark Knight é longo, mas nada mau — pena que tem tanta coisa acontecendo que eu não consegui prestar atenção em todos os meus atores favoritos menos Johnny Depp atuando no mesmo filme. Preferi Wall-e. Até agora eu acho que sonhei que estive nesse lugar.
Caso esteja pela região durante o verão, passe lá.
Eu acho que todo mundo deveria assistir a Glengarry Glen Ross (O Sucesso a Qualquer Preço no Brasil), único filme no mundo com Jack Lemmon, Al Pacino, Alec Baldwin e Kevin Spacey AO MESMO TEMPO.
A, B, C. Always. Be. Closing.
“Fairy” é provavelmente a pior ofensa do xingamento inteiro.
Depois, eu acho que todo mundo deveria saber que isso tudo aconteceu porque um cara chamado David Mamet escreveu o roteiro da peça que deu origem ao filme. Em seguida, todo mundo deveria assistir aos outros filmes cujo roteiro é do Mamet — não os que ele adaptou para o cinema, mas os que ele criou: Edmond, Spanish Prisoner, Olleana. Ele escreveu Hoffa também, mas eu não posso recomendar porque não me lembro de ter assistido. Ontem eu vi Lakeboat, e não amei, mas olha isso, a partir de 1:06:
Don’t tell me about beer, Joe. Please, don’t tell me about beer. I drunk beer.
Eu entendo porque atores aceitam qualquer papel, mesmo que seja uma ponta, se o filme é do Mamet. Se eu fosse atriz, eu gostaria de repetir diálogos assim pro resto da minha vida. E a real é que eu fico repetindo mesmo assim.
Como é que eu conto isso?
Na segunda-feira foi meu aniversário. O namorado fez uma surpresa e comprou ingressos pra uma peça na Broadway chamada Bronx Tale, com Chazz Palminteri. Semanas antes Chazz foi nossa piada interna por participar do A Guide to Recognizing Your Saints, mais um filme sobre como ferrar com a própria vida se metendo com gangues em NYC nos anos 70, e era certo que alguém se RECUSOU a produzir o filme se o Chazz não tivesse um papel, pois ele SEMPRE está em qualquer filme desse tipo. Me cai o queixo que ele não tenha participado do Sopranos nem uma vezinha.
Mas então, Bronx Tale é a peça que ele escreveu e que inspirou Desafio no Bronx, um belo filme que eu não vi ainda. Eu não sabia o que esperar porque era uma surpresa, então a peça começa, ele se apresenta (como ele mesmo) e conta a história da vida dele durante a infância quando ele virou o protegido de um mafioso poderosíssimo chamado Sonny (minha outra teoria é que todo filme de mafioso tem um Sonny).
Primeiro eu tive a impressão de que ele parece com a própria estátua de cera. Acho que era o excesso de maquiagem que eu rapidamente consegui abstrair, porque logo me dei conta de que não tinham outros atores. Com cenário simples e em tom de quem conta uma história engraçada e antiga pra amigos numa mesa de bar contando essas histórias da infância dele, ele resgata TODOS os personagens mafiosos que a mente humana conseguiu inventar até hoje, e que são comuns dos filmes modernos de máfia italiana em Nova York.
Foi uma hora e meia sem intervalo onde ele não parou nem pra tomar água. E o que parece incrível em termos de números é, na verdade, completamente genial na arte de contar histórias, da maneira como ele escreveu esse texto em formato de monólogo à maneira como ele, basicamente, interpretou sozinho as partes de todos os diálogos que aparecem no filme (até onde eu sei dos vídeos que achei no YouTube, inclusive essa) sem confundir a platéia. E mesmo o que parece “ih, lá vem história de mafioso” soa como um relato bastante real daquela época, com o bom humor que é possível quando se fala de algo trágico que aconteceu faz muito tempo.
(Comentário desconexo: em algum momento da peça, Chazz chama um personagem de “nigger“, e pode-se escutar a platéia suspirar MUITO ALTO de horror porque um branco pronunciou aquilo. É um xingamento terrível por aqui, mas que eu não consigo entender completamente talvez porque não consigo me lembrar de nenhuma palavra em português que choque pessoas de todas as idades da mesma maneira. Se alguém se lembrar, me sussurrem aí nos comentários.)
Não me conformo que não tenha YOUTUBE disso pra eu mostrar pros amigos.

Saiam daqui agora e vão comprar ingressos antecipados para a estréia de Superbad (IMDb, trailer não muito bom, site oficial). Melhor comédia em ANOS. Confirmou a minha decisão de assistir a toda e qualquer coisa em que apareça o Michael Cera, ainda que seja sempre o mesmo personagem com as mesmas roupas horríveis.
San Francisco estava ótemo, conto mais tarde.
But what precisely are we getting into with Inland Empire? The only explanation Lynch has offered to date is that it’s about “a woman in trouble.” What kind of trouble? “Well, you know,” replies Lynch, “I just say it’s about a woman in trouble.” That’s it? “That’s it. I can’t really say, because it putrefies the experience. You see a thing, and that thing has been worked on for a long time until it feels correct as a whole. And then it needs to go out without any additional words. It doesn’t do any good for the director to say this or that — it doesn’t really change people’s opinion. They might come up with something far more interesting out of it.”
Da matéria do Village Voice dessa semana, versão reduzida aqui.
Dêem boas vindas ao primeiro longa-metragem postado no YouTube, Four Eyed Monsters. É um filme autobiográfico, produzido, dirigido e “atuado” por um casal em NYC. É uma produção bastante modesta, mas a história é bonitinha, razoavelmente bem feita, e fecha perfeitamente com o visual digital (o que é raro). Recomendo, e lembro que ele está em cartaz no site apenas até 15 de agosto, ficando disponível depois somente através do site oficial do filme. Quem gostar deve inscrever-se no http://www.spout.com/foureyedmonsters, que rende US$1 por assinatura aos cineastas pra cobrir o rombo financeiro, e não custa nada. Não é exatamente um bom modelo de negócios, mas dá pra começar a pensar em lançamento de filme que não passe pelo inferno da distribuição.
P.S.1: valeu, Eks!
P.S.2: eu juro que estou fazendo várias outras coisas além de ver filmes. Em seguida eu conto.
Eu vi Shortbus, do John Cameron Mitchell, no fim-de-semana passado, baixei a trilha sonora, falei pra todo mundo a respeito e ainda não parei de pensar em algumas cenas, músicas, e de me emocionar toda vez que vejo o trailer aí em cima. E juro que não é por ele ser recheado de sexo explícito (o que me decepciona quando não é justificado). Pra falar a verdade, várias cenas são de sexo ruim, e mesmo com isso, suicídio, depressão e relacionamentos, o filme consegue ser engraçado e completamente feliz. Recomendo muitíssimo. E, pra quem for assistir em DVD, os extras são ótimos e dão uma bela idéia de como o filme se desenvolveu.
Esse fim-de-semana fui a algumas sessões de filmes do Festival de Sundance que estava passando no Brooklyn Academy of Music. O documentário premiado esse ano foi Manda Bala, filme produzido e dirigido por americanos sobre corrupção e violência no Brasil.
São relatadas duas histórias aparentemente desconexas: a fazenda de criação de rãs criada no Norte pra desviar um MONTE DE DINHEIRO da Sudam e o papel do Jáder Barbalho nessa história; e o cirurgião plástico de São Paulo que criou uma técnica revolucionária para reconstruir orelhas decepadas em seqüestros que envolve tirar um pedaço de costela do vivente, esculpir a orelha e enfiar ela na cabeça. E tá tirando a maior grana com isso.
De um lado, descreve-se, com muitos depoimentos de investigadores e promotores de justiça envolvidos no caso da Sudam, como funciona uma rede de corrupção no governo brasileiro e como, no caso da Sudam, ela afeta uma região pobre como o Norte. Um coisa meio Corrupção no Brasil para Dummies, porque todo mundo no Brasil sabe. De outro lado, depoimentos de uma mulher que teve ambas as orelhas decepadas durante um seqüestro e de um grande empresário paulista identificado como “Mister M” que fez um curso para aprender a dirigir seu Porsche a prova de balas para escapar de seqüestradores e assaltantes em potencial.
Mas a coisa fica boa na entrevista com um seqüestrador profissional. Ele ri quando perguntado se lembra quem foi a primeira pessoa que ele matou, detalha como planeja cada rapto, como é a comunicação com a família em seguida, como mandar orelha pelo correio funciona, como roubar banco já era. Mas é imediatamente humanizado quando descobrimos que ele sustenta várias famílias da sua favela com o dinheiro dos seus crimes — talvez uns R$100 mil por mês com 2 ou 3 seqüestros?
Pelo que entendi, Manda Bala causou algum rebuliço no Brasil (matéria horrorenda da BBC aqui) porque, junto com Turistas, é mais um americano metido a besta a falar mal do Bananão e das nossas maravilhas e vocês parecem que se esquecem que elegeram o Bush seus americanos consumistas o Brasil é lindo e o povo brasileiro é batalhador e hospitaleiro e coisetal. Mas, olha, o filme pode tomar partido, exagerar um pouquinho pelo bem do entretenimento (sim, entretenimento) e do entendimento por parte dos americanos para quem foi feito, mas não mente. É definitivamente uma boa história, razoavelmente bem contada, ainda mais com todos aqueles depoimentos que, no Globo Repórter, apareceriam com menos detalhes, voz alterada e imagem desfocada. E com o plus a mais da trilha sonora de música brasileira dos anos 70 que deixa qualquer cena maravilhosa. Eu adorei.
De acordo com o diretor do filme, que falou após a sessão, Manda Bala não pode ser exibido no Brasil, e ele não pode falar sobre isso. Minha aposta é que algum dos entrevistados do filme vai meter processo se isso acontecer. E não será o seqüestrador: esse morreu no fim de 2006 numa troca de tiros com a polícia. Matou dois TIRAS, entrou numa ambulância com um tiro na perna e outro no ombro, e saiu dela com mais um na cabeça.