O Jon me contou as melhores histórias de infância que eu já escutei, todas protagonizadas pelo irmão dele, Bill. Aqui vão três delas.
Bill tinha 10 anos e gostava de acordar no meio da noite e APRONTAR coisas. Na casa deles tem muitos, muitos livros. Ele pegou todos os livros de culinária grandes de capa dura tijoludos que conseguiu encontrar e enfileirou, um depois do outro, de pé, começando a fila no quarto dos pais dele, descendo a escada e terminando sei lá aonde. Os pais dele acordaram com aquela obra bloqueando a passagem, e um recado que dizia “Good morning! It’s cookbook dominoes!”
Noutra ocasião a mãe dele acordou e encontrou uma mensagem na cozinha, escrita na máquina de escrever, que dizia: “Querida, você gostaria de se divorciar? Você fica com as crianças. Sinceramente, [assinatura]”
E a outra é que eles tinham um gato e um cachorro. O segundo não podia ver o primeiro sem ficar todo menstruado, então eles mantinham o cão de noite no andar de cima e o gato no andar de baixo. Uma noite a mãe deles acordou com um miado dentro do quarto e iniciou uma busca desesperada pelo gato, que não parava de miar mas não aparecia em lugar nenhum, e poderia ser MORTO a qualquer momento pelo cachorro. Só encontraram, muito depois, um gravador embaixo da cama que repetia o miado do gato que o Bill gravou. O cachorro, obviamente, nem acordou.
Como se acaba um dia ruim, em que você foi exposto na frente da diretoria, pessoas não te deixaram terminar de falar muitas vezes e te hostilizaram por algum motivo obscuro, você já não tava de bom humor e passou o dia todo com sono, a lente de contato incomodando e sem nenhuma presença de espírito ou vontade de viver porque a humanidade é ruim, não te entende, você tá longe de casa e dos amigos de verdade?
Com o filho* de 10 anos da tua faxineira vindo até a tua casa pra te dar o Halo 3 de presente porque ele ganhou de alguém que não sabia que ele não tinha Xbox. Isso junto com um pirulito de framboesa.
* e ele usa ÓCULOS!
Nikola Tesla, muito tempo depois de inventar o circuito alternado, já estava meio louco mesmo e inventou o RAIO MORTAL DO TESLA, que prometia ser tão ameaçador que acabaria com todas as guerras. Chamou todo mundo pra fazer uma apresentação do invento. Jogou um pássaro na frente do raio mortal, fulminando-o. Todos ficaram olhando sem dizer nada, já que não parecia muito mais ameaçador do que uma arma. Dias se passaram e na cidade chegou a notícia sobre aquele suposto meteoro que caiu na Sibéria e devastou uma área enorme, mas não matou ninguém. Ao saber disso, Tesla exclama:
- Errei a mira!
Brecht, lá pelas tantas fugia do avanço nazista pela Europa, passando por todos os países logo antes que eles fossem invadidos, até parar em Hollywood. Ele levou essa vida e até escreveu uma de suas peças nesse meio tempo, quando a Comissão de Atividades Anti-Americanas da Câmara dos Deputados pressionou-o para que ele contasse das suas atividades comunistas. Brecht mostrou uma certa vontade de cooperar típica de um estrangeiro sem muitos direitos nos EUA, e declarou que não falava inglês, obrigando a comissão a trazer um tradutor. Brecht passou o tempo inteiro criando problemas de interpretação para o tradutor e confundindo a câmara, até que alguém se deu conta de que ele escrevia roteiros em inglês para o cinema*. Ele instantaneamente continuou os depoimentos em inglês, sem explicação e sem muito protesto da comissão, que não tinha outros depoimentos pra coletar mesmo. Deu muitas informações inúteis aos americanos, enquanto fumava um charuto fedorento que deixava os deputados enjoados. Foi liberado depois de algum tempo, recebendo agradecimentos pela sua cooperação, e voou para a Suíça no dia seguinte.
Semanas atrás assisti ao Mike Daisey (sim, aquele contador de histórias do Invincible Summer) falar do Bertolt Brecht e do Nikola Tesla em 2 espetáculos da série Great Men of Genius. Minha grande dor foi perder P.T. Barnum. Mas uma palhinha do show pode ser escutada aqui:
E ele conta muito melhor do que eu.
Tem também palhinha do Tesla:
* roteiros inteiros não, mas cenas perdidas em filmes: podia ser até um filme adolescente sobre um casal apaixonado que a cena do Brecht sempre envolviam uma multidão que se juntava em torno dos personagens principais sem NENHUM MOTIVO, começavam a protestar por causa de alguma coisa e dispersavam no fim da cena para que a história “de verdade” continuasse.
Erin McKean, além de ser editor in chief da segunda edição do New Oxford American Dictionary, escreve um blog sobre vestidos e outro sobre lexicografia, além de fazer parte do conselho da Wikimedia Foundation. Eu acabei ficando acordada até agora assistindo o vídeo aí em cima da palestra dela aos funcionários do Google, onde ela conta as 10 coisas que ela gostaria que todo mundo soubesse sobre dicionários e como as buscas do Google ajudam no trabalho dela. Ela também falou no TED (e eu acho que todo mundo deveria assistir a todos os vídeos do site do TED) e na Pop!Tech.
Bem legal.