Aqui, ligar a televisão, se não for pra ver sitcoms, é garantia de tristeza e revolta. Ligo a TV e vejo que, na borough do lado, um cara ficou dirigindo seu carro e atirando nas pessoas aleatoriamente durante uma hora, até conseguirem detê-lo. Ou vejo tudo sobre a intimidade do pedófilo que não matou a guriazinha loirinha aquela. Ou uma propaganda REALMENTE IRRITANTE.
Mas ontem assistíamos a BBC e passava um documentário sobre aquecimento global. A maior parte do programa girava em torno de uma entrevista com o Al Gore a respeito. Falava sobre como, em 50 anos, boa parte das cidades poderia ser inundada por conta do derretimento das calotas polares, como a responsabilidade das empresas de petróleo e outras indústrias era enorme, como elas tentavam manipular a opinião pública mostrando pesquisas falsas dizendo que o aquecimento global era um acontecimento natural e que nada tinha a ver com o excesso de gás carbônico na atmosfera.
Perguntam ao Al Gore o que os EUA (que não assinaram Kioto) precisam fazer e já estão fazendo pra evitar mais catástrofes. Ele enumera. E perguntam de que adianta os EUA fazerem TUDO ISSO se países como a China e a Índia inauguram usinas de carvão que poluem tudo. Ele diz que os EUA deveriam intervir.
Sei muito pouco sobre tudo isso, mas EUA = jardim de infância.
Aliás, gostaria de esquecer de fazer a lista das coisas que me deixam irritada por aqui. Tomara que eu esqueça.
Hoje, no metrô, vi minha primeira unnatended package. Não satisfeita, vi duas no mesmo dia!
Aqui no metrô existe uma campanha anti-terrorismo cujo slogan é o título desse post. Manda as pessoas avisarem os funcionários do metrô se virem QUALQUER coisa suspeita, entre pessoas agindo de maneira estranha (como um cara tocando sax muito mal) e sacolas abandonadas. É, qualquer coisa, sem medo de ser feliz.
A primeira unnatended package devia ser uma instalação pop: um monte de latas de sopa Campbell em cima de um dos bancos. Numa estação bastante secundária, ninguém por perto. Não avisei nenhum funcionário do metrô.
A segunda era na estação Times Square/42nd street, uma gigante e muito movimentada que tem aqui. Estava em cima do banco em que eu estava sentada dentro do trem, era uma sacola de plástico preta com bastante volume. Era o cúmulo do terrorismo, sério. Confesso que deu um medo quando me liguei que aquela estação é super grande. Antes que eu decidisse avisar alguém, chegou um funcionário do metrô, olhou ela mexendo com uma garrafa de água, sem tocar, e, percebendo que não era nada, levou embora.
Imperdível a matéria da Time Out sobre a febre de nerdismo de vanguarda que assola Nova York. Difícil escolher as melhores partes, mas os eventos são especialmente interessantes:
Come Out & Play Festival: Just as that crazy Christo transformed Central Park into a work of art, the three-day Come Out & Play Festival will turn the city into a giant board for large-as-life street games. Approximately 20 events, varying from camera-phone-enabled scavenger hunts to a Wi-Fi location-based competition from the guys behind the meta–video game Pacmanhattan, will take place throughout the city September 22–24.
LightSabersNYC: “The city is our playground. Childhood is subjective.” So claim the members of LightSabersNYC, a group of sci-fi geeks who wage elaborate (and politicized) versions of capture the flag using $10 plastic lightsabers. Whether you’re fighting on behalf of the evil Darth Bush and Emperor Cheney or teaming up with AlGore Solo, Clin-ton Skywalker and the rest of the Jedicrats, the rules are simple: no head shots, bring your own saber and, of course, fight with honor.


visão da linha Q de metrô, uma das que liga Brooklyn a Manhattan e uma das que atravessa o rio por cima da água.
Apesar de parecer óbvio, vale a pena contar que, sempre que se precisa de qualquer coisa por aqui, vale a pena procurar na Craigslist. É um site gigante de classificados separados por cidade ou estado, e todo mundo aqui nos EUA anuncia lá. Foi através dele que eu achei a minha roommate.
E, na mesma semana, ainda consegui VENDER UMA CAMA.
Logo que eu dei o lance pra alugar o quarto, saí pra comprar uma cama na Ikea, que é tipo uma Tok & Stok no quesito Do It Yourself, só que barata para os padrões daqui. Por algum motivo que me foge, eu comprei uma cama de solteiro. Ah, claro, meu quarto tem 2,5mX2,5m de área útil. Ainda assim, depois de morar sozinha por um ano e meio, não dá pra dormir em cama de solteiro. É meio triste. Resolvi que tinha que trocar por um sofá-cama tamanho casal.
E anunciei a cama novinha na craigslist. Tentando não me sentir uma idiota por mudar de idéia. E, em dois dias (mais tempo do que eu esperava), vendi para Victoria.
Victoria veio aqui e revelou ser uma russa casada com um russo. Tinha uns 50 anos, e era bonita, mas discreta. Magrinha, cabelo comprido preto preso, bem branca, com um jeito de quem nunca saiu na rua com os ombros de fora ou de calças — apenas saias. Parecia tão, mas tão respeitável. O marido dela era um desses russos brabos com a cara quadrada e eles ficaram uns 10 minutos discutindo em russo no meu quarto sobre levar ou não o colchão.
Ela me contou que já tinha ido ao Brasil, ver um guru em Abadiania, ou coisa parecida. E que o marido dela ia matar ela por ter causado tanta confusão com a cama. E, é, ele tava meio de cara por ter que estacionar em lugar proibido, correndo risco de tomar uma multa de US$900 pra economizar uns trocos numa cama da Ikea.
Sei lá, são coisinhas que eu talvez não contasse pras pessoas daqui, porque elas estão tão acostumadas. Mas eu quero aproveitar enquanto estou deslumbrada.
OK, eu provavelmente estou ficando maluca. Vou embora e só consigo falar em chinelo. Mas tinha que contar que só hoje vi três pessoas paradas na calçada com um pé de chinelo com a tira arrebentada na mão.
Uma delas era eu.