
Foi uma partida violentíssima e disputada, mais ou menos como eu imaginava que seria o hockey (= uma modalidade de futebol no gelo com tacos pra bater nos outros jogadores). A platéia americana é quietinha, a partida é interrompida a todo tempo para intervalos comerciais televisivos (pra quem tá assistindo pela TV, não no estádio), toca música no meio do jogo (”Song 2″, do Blur, e “Comfortably Numb”, do Pink Floyd, estavam na setlist) e ninguém assiste escutando radinho. E, inacreditável: os jogadores se batem horrores mas NUNCA CAEM, como me aconteceu 2 semanas atrás e eu achava que tinha quebrado uma perna. Ou caem e toda aquela armadura torna isso imperceptível, como se eles rolassem mesmo. Tudo muito divertido, lá pelas tantas eu tava até batendo palma
Percebam que eu nunca tinha assistido a um jogo de hockey na vida, nem na TV. Aliás, eu nunca fui ver futebol no estádio. Isso tudo e a minha mais recente ambição é assistir a um jogo da NBA.

Isso foi logo quando eu cheguei aqui, em agosto do ano passado. Estavam lançando o filme Snakes on a Plane, e a febre da bizarrice era tal que, na frente do museu de cera Madame Tussauds, expuseram a estátua do Samuel L. Jackson e uma cobra. A foto foi tirada pela Caroline. E eu ainda não tive o ânimo apropriado para assistir ao filme, nem depois de ver essa peça genial de publicidade, e saber que o Samuel precisou ler apenas o título do script pra topar fazer o filme. Quem sabe no mesmo dia em que decidir assistir Turistas?

Tá, eu ando sumida mesmo. É que o Júlio, meu amigo, veio aqui pra NY e por isso estive ocupada. Entre outras coisas fomos pra Disney uns dois findis atrás. OK, não entrei no parque da Disney propriamente, mas sim em 2 parques da Universal Studios: o Universal Studios e o Islands of Adventure. Me diverti horrores, sério. Praticamente todos os brinquedos que andamos tinham alguma coisa de montanha russa e SUSTO, o que foi divertido na maior parte do tempo.
Cada brinquedo é temático de um filme ou personagem de desenho ou seriado, e consiste no seguinte: você entra numa sala onde arranjam uma desculpa pra te contar a história toda e dar o contexto. Às vezes esse contexto é dado nos caminhos da fila, que são gigantescos, para abrigar a quantidade abessurda de gente que visita os parques durante o verão americano. Te mandam entrar noutra sala. Toca um alarme ALERTA VERMELHO indicando que tudo está errado, você vai morrer e você precisa entrar no carrinho da montanha-russa ou sei lá o quê e salvar o MONDO. Você entra, leva um montão de sustos e sai rindo nervoso. Ou vomitando. Na saída pode ter uma foto sua rezando para todos os santos dentro do carrinho, além de um monte de souvenires caros.
O melhor brinquedo de todos os tempos é certamente o do Spiderman, que mistura montanha-russa com gráficos 3D (o tal do óculos verde e vermelho está em boa parte dos brinquedos) e culmina numa queda DE CARA NO CHÃO totalmente convincente de um prédio em NYC. Eu fui 3 vezes e morri nas 3. Tem também um elevador do MAL, cuja parte mais apavorante não é uma queda de vários andares, mas a subida brusca de uma salinha apertada para um panorama moito alto e aberto de Orlando.
O pior de todos foi aquele do marinheiro Popeye que avisava BEM GRANDE que ficaríamos ensopados, aviso esse que ignoramos completamente, pensando que levaríamos apenas uns respingos nesse inverninho de 10 graus Celsius da Flórida. Mas ficar molhado foi melhor do que andar vestido de sacola do Zaffari o dia inteiro por causa da chuva.
Parecem presentes em todos os parques várias áreas específicas para fumar cigarros, isoladas da visão geral mas ainda ao ar livre. O problema é se você esqueceu o isqueiro; simplesmente não existe lugar pra comprar. O consumo de cerveja nos parques a qualquer hora em qualquer lugar é liberado, mas não necessariamente encorajado: a variedade é pequena e sai meio caro.
Cada parque requer um dia inteiro pra ser devidamente aproveitado (escapamos da facada de uma brasileira que queria nos vender ingressos caros no hotel e compramos pela internet, US$85 valendo para os 2 parques da Universal por 7 dias). Depois de visitar um parque inteiro, não é possível fazer mais nada pelo cansaço. Na Starbucks, recuperando as forças no final do dia pra voltar a Miami, a expressão de todas as pessoas era de exaustão e vazio existencial.

A prefeitura de New York lançou nessa semana de Valentines as camisinhas oficiais da cidade, num esforço para encorajar o uso utilizando a marca da cidade. Mas nada de I (coração) NY. O layout é inspirado nas letras e cores das linhas de metrô daqui, cujo sistema, com suas 24 linhas de trem, é uma das coisas que os locais mais amam/odeiam/pensam a respeito. É NYC total.
Fui numa peça chamada Invincible Summer, criada por um cara chamado Mike Daisey, e era uma série de monólogos engraçados e trágicos a respeito da cidade (entrevista com um trecho da peça aqui), muitos deles tomando como ponto de partida coisas clássicas da cidade como o metrô, o verão insuportável, o 9/11. E eu já andava pensando como eu pensava no metrô, e como os outros pensavam nele também, e sabiam quais trens têm a entusiasmada mensagem gravada STAND CLEAR OF THE CLOSING DOORS PLEASE!, quais têm os bancos laranja ou cinza, ou um piloto insano que não pára de falar no auto-falante. Ainda que o metrô facilite a vida e nos leve pra absolutamente todo canto, se passa muito tempo dentro dele.
O Mike, em um dos monólogos, de alguma maneira que eu não posso transcrever literalmente porque esqueci, disse que todas as outras cidades da América estavam se desenvolvendo, indo pra algum lugar, se preocupando em ficar melhores. NYC era a única cidade que era suja e cheia de problemas, mas que tinha a cara-de-pau de criar uma campanha (durante os anos 70, no meio de uma onda de violência) declarando que todo mundo ama NY. NY não quer mudar, nem melhorar, porque ISSO é NY. E por isso morar em NY é mais ou menos como comer a Paris Hilton; você não se concentra em comer ela, mas fica se olhando de fora pensando o tempo todo “Eu tou comendo a Paris Hilton! Eu tou comendo a Paris Hilton!”. E a Paris? Passa o tempo todo pensando “Eu SOU a Paris Hilton! Eu SOU a Paris Hilton!”
Me lembra bastante Porto Alegre isso tudo, só que bem mais absurdo. Eu já me peguei várias vezes imaginando um doido berrando dentro de um Circular 3 em Porto Alegre, e alguém exclamando com um sorrisinho deslumbrado frente à situação bizarra: “Ah, isso é Porto Alegre!”. Eu escuto “this is New York…” TODOS os dias. Ou uma camiseta Eu (coração) Porto Alegre — só turista teria isso lá, certo? Aqui não é tão coisa de turista a tal da camiseta, ou a tal da atitude. Sinatra cantando “Porto Alegre, Rio Grande do Sul”. Longas conversas sobre porque o T-9 é o melhor ônibus que existe. Heh. Será que Porto Alegre era mesmo assim e eu me esqueci? Acho que era…
Mas, apesar de tudo, a estratégia da camisinha municipal funciona pra mim; quero, é MEO, medá! AMO o metrô. Sobre a Paris Hilton? Não tem como não nutrir certa simpatia por ela. Suja, burra, poser, rica e todo mundo quer saber o que ela anda fazendo, mesmo que seja nada, como sempre. Porto Alegre? É uma boa cidade, não me venham com ranço.