Tem um café na frente da minha casa nova amanhã. Se tudo der certo, ele servirá coisas melhores do que a porcaria café-em-pó que acabaram de me servir na lanchonete jamaicana aqui embaixo de casa.
Rodrigo Roesler, membro honorário do Mondo Estudo e o meu, o seu, o nosso garoto que faz programas predileto, criou Trapped, um jogo excelente e viciante. Quando eu conto pro meu chefe que ele fez absolutamente tudo sozinho (tirando o tal do inglês que o Maestrini ajudou) entre um freela e outro, ele não acredita. E é tão bom que eu tive que parar quando estava com um abridor de garrafas, uma garrafa, uma chave, uma carta e um livro porque era hora de discutir com uma designer no trabalho, ligar pro man-with-van pra iniciar a mudança pra casinha nova e enviar um e-mail pro meu namorado decepcionado. Mal posso esperar pela 2a. e 3a. partes - mas que, se depender do curso que a minha vida real está tomando, terão que esperar por mim.
Eu só queria deixar bem claro que a minha cerveja preferida no mundo inteiro é a Corona, com uma fatiazinha de limão. Depois dela, Spaten Oktoberfest, da Alemanha. E, depois ainda, Stella Artois, Heineken ou Modelo Especial. Só aqui descobri que gosto mesmo é das cervejas de verão. Aquela coisa Guinness de ser não me cai.
Estou curiosa pra saber o que vou achar da cerveja brasileira quando voltar em novembro.
Muito por forças maiores e um pouco por vontade própria, me mudo no dia 1o. de outubro para a periferia do epicentro do muderrnismo neoiorquino: Greenpoint, no Brooklyn. Em um ano e 2 meses de NYC, eu terei morado em 3 casas e 4 quartos diferentes, exatamente como havia previsto.
Soube que minha nova landlady é uma senhora de 90 anos que não fala inglês e/ou é completamente senil, mora no andar de baixo, e ficará escandalizada quando meu namorado começar a passar as noites lá em pecado sem ter se casado comigo. Creio que ainda terei muitas histórias pra contar sobre essa mulher e a ditadura do landlord novaiorquino médio que tem a chave da sua casa.
Enquanto assinava o contrato com a corretora de imóveis, ela atendia um cara com um piercing no nariz, outro no lábio, uma cabeça raspada e várias tatuagens, mas que parecia ser um doce de pessoa. Ele queria alugar um apartamento:
- Olha, essa é uma vizinhança tradicional… as pessoas vão na igreja aqui… esse landlord é uma pessoa de 70 anos, eu acho que ele não vai gostar de ver isso…
- Isso o quê?
- … isso, os piercings.
- …
- … Você vai ter que tirar.
- Pra conhecer ele?
- … não, pra sempre…
- …
- … pensa no lado dele, tu por acaso vai pro trabalho com essas coisas?
E lá pelas tantas se descobre que moradia é a coisa mais importante e difícil de se achar em NYC. Achei um lugar de barbada no Chelsea, mas quando telefonei pro corretor, descobri que precisava de um histórico de crédito impecável e um salário anual de 6 dígitos. Liguei pra outra corretora que estava mostrando o mesmo imóvel, e, antes de me perguntar qualquer coisa, ela me disse que não poderia mostrar porque teve gente que mandou a documentação necessária para se comprometer a assinar um contrato sem nem ter visto o lugar.
Uma colega de trabalho me contou ontem que o landlord cancelou o contrato 4 horas antes dela se mudar, forçando-a a encontrar outro apartamento antes que a equipe de mudança chegasse — ela jura que conseguiu e se mudou 4 horas mais tarde.
Tenho uma outra amiga que está considerando dormir com um carinha que vai deixar o seu apartamento enorme e barato pra se mudar pra outro maior ainda. O objetivo? Ele paga apenas US$1000 por mês, um aluguel muito baixo para aquela zona, e se ela fizer tudo direitinho, ele repassaria o apartamento pra ela. Só que minha amiga está concorrendo com várias ex-namoradas desse cara.
Porque existe tanta procura é que acontece uma evolução curiosa em todos os bairros de NY:
1- um artista se muda pra um bairro horrível porque não tem um tostão furado;
2- ele dá festas e os amigos dele se mudam pra lá também. Alguém abre ou descobre um bar;
3- muitos artistas e pessoas CRIATIVAS, por assim dizer, se mudam pra lá porque é barato e tá ROLANDO UMA CENA;
4- o bairro se torna a coisa mais inacreditável que aconteceu desde Andy Warhol e a Factory;
5- pessoas ricas e descoladas, ou metidas a descoladas, começam a se mudar pra lá também. Se o bairro era perigoso, policiais fazem uma limpa;
6- landlords e corretores se dão conta e aumentam o valor dos aluguéis;
7- mais pessoas ricas se mudam. Artistas protestam;
8- artistas vão embora porque ficou caro demais;
9- o bairro fica muito chato, mas ainda carrega a fama de ser o lugar mais descolê de todos. Inicia-se a construção de um empreendimento imobiliário caríssimo;
10- abre um Starbucks;
11- o bairro vira ponto turístico.
Acredito que em 50 ou 70 anos isso terá acontecido com todos os bairros e essa cidade será insuportavelmente cara e insossa.
(Porque eu não conheço nem metade das melhores histórias de busca por apartamento em NY, recomendo essa matéria do NY Times que o Patrick me mandou. Está especialmente boa por conta do final nada feliz.)
E finalmente coloquei as fotos de San Francisco no ar. Algumas histórias conto aqui, outras ficaram só nas fotos mesmo.
A impressão mais forte que tive de San Francisco é de que é uma cidade grande com ares de cidade pequena — e isso me lembrou um pouco Porto Alegre. SF, até onde pudemos constatar, até tem bastante coisas pra fazer, eventos pra ir, vida cultural intensa, mas a cidade acontece mesmo na rua: ela fica bem no meio de uma baía, o clima é delicioso, e há muitas caminhadas interessantes pra fazer. A vida parece ser calma, os prédios são baixinhos, e jovens bronzeadas jogam Scrable na frente de um café que fica a uma quadra da casa delas num domingo pela manhã.
Por toda a baía, por onde passeamos, tanto na parte mais costeira do Embarcadero e seus piers como na parte mais urbana, dá pra ver muita gente razoavelmente bronzeada andando de bicicleta, caminhando, sempre usando roupas esportivas. Aliás, a impressão é de ser uma das cidades mais enviromental dos EUA: muitas coisas e pessoas conscientes do aquecimento global e coisetal.
Transporte público na cidade é fácil e agradável o suficiente para dispensar o uso de táxis e aluguel de carros, mas é lento. Os turistas são encorajados a andar nos incríveis bondes históricos que ainda circulam pela cidade, mas estragam com frequência e são caros demais (US$5 por viagem) para serem usados no dia-a-dia. Diferentemente de como acontece em NYC, foi difícil para nós sairmos do circuito turístico e ver aonde os residentes vão de verdade, até porque aparentemente os meios de transporte segregados não ajudaram.
Umas poucas vezes pudemos ver os verdadeiros residentes de San Francisco. Uma delas foi no bairro Castro, o bairro gay mais antigo e tradicional da cidade. Confirmou a minha teoria de que bairros gays são os melhores sempre: uma casinha bonitinha, bem cuidada e antiga atrás da outra, lindos jardins, barzinhos por todos os cantos com comida deliciosa. E pessoas absolutamente gentis.
Alguém que vem do Brasil jamais perceberia, mas outro aspecto dos residentes de SF é que existem muitos sem teto, gente pedindo dinheiro na rua. Alguns são claramente falsos, já que usam roupas coloridas e esquisitas e ficam agindo de forma bizarra só pra tirar uma grana dos turistas. Eu vi uma menina com o cabelo mais bem tratado do que o meu e roupas mais interessantes sentar na calçada com alguns cobertores, uma placa e um cigarro permanentemente aceso. Jon olhou feio pra ela e ela não olhou mais pra gente.
Jantar e ir em bares em San Francisco foi uma experiência decepcionante: não sei se era o feriado de Labor Day ou o fato de que a ponte que conecta Oakland a SanFran estava fechada e a cidade só tinha turistas, mas não tinha viva alma em lugar nenhum de noite. Pra uma metrópole, achei muito morto. JURO que entramos num bar tão quieto que tínhamos que falar baixo pros outros não escutarem a nossa conversa, e me constrangi quando escutei o barulho da descarga de um dos banheiros. Mas, enfim, pode ser apenas que só entramos nos lugares errados e tudo isso durante o último feriado do verão quando todos dão um jeito de cair fora.
Existe muita arte pra ver por lá, e a produção contemporânea local é algo que eu só consigo classificar como LEGAL, porque é legal mesmo. Mas o melhor não fica nos museus, que eu nem fui ver com medo da tunda de laço que os museus de NYC dariam nos de SF. O melhor fica na região da Union Square, onde ficam muitíssimas galerias comerciais que vendem arte do século XXI, XX e contemporânea. O prédio 49 da Geary Street, casa de centenas de galerias, me chamou a atenção em especial, com seus balaios e a minha tentação de desviar 2 meses do pagamento do meu aluguel pra comprar uma gravura do Miró, além dos artistas que eu nunca ouvi falar.
Mas resolvi não ver muita arte e fazer um lance mais caminhadas ao sol e museus bizarros mesmo. Golden Gate Park é assustador de tão grande e imponente. Os piers do Embarcadero são lindos, e de todos dá pra ver a ilha de Alcatraz. O Aquarium tem 2 túneis que passam por dentro de habitats aquáticos artificiais, e pude ver tubarões e arraias passando por cima de mim. O Ripley’s Believe It Or Not Museum dá sustos e PREGA PEÇAS tão cheesy que são engraçadas. Aliás, me chamou a atenção como boa parte de San Francisco tem ares meio Coney Island, Brooklyn — ou seja, bizarrice generalizada que junta circo, parque de diversões, pessoas deformadas e, ahm, marinheiros, prostitutas e ciganos, além de burguesia afim de assistir a tudo isso — mas menos assustador e sujo. Aliás, é tudo razoavelmente mais amigável e menos sujo do que NYC por lá.
Outro item bizarro e completamente divertido é o Musee Mecanique, cheio daqueles brinquedos de parque de diversões em que tu põe uma moeda e ele te lê a sorte, ou dança, ou mostra um filmezinho da época do início da fotografia e do cinema. A entrada no museu é gratuita, mas aconselho levar uns US$5. Em moedas de 25 centavos.
Fora esses locais turísticos e eventos, vale a pena subir e descer lombas como Nob Hill e Cobble Hill. Chegar lá em cima, parar numa esquina, olhar pra todos os lados e ver somente ruas em descidas íngremes dá muita vertigem e é lindo. O que me lembrou Porto Alegre também, pois New York é plana na maior parte dos lugares, e eu sentia falta daquelas lombas.
No final, dou o braço a torcer: viveria 10, 20 anos em NYC, mas gostaria de manter uma certa moleza que me permitisse ser velhinha e senil em uma cidade como San Fran.
Tou indo pra Porto Alegre em novembro, fico do dia 22 ao dia 2 de dezembro.
(Fiz o po$$ível e o impo$$ível pra comprar passagens não-TAM — isso incluiu xingar a Gol por não aceitar nenhum dos meus 300 cartões de crédito roubados, de mim e dos outros. Não recomendo comprar nada no site deles: 50% das mensagens de erro não apareceram, ou apareceram COM ERRO, inclusive as de confirmação de pagamento (!). Depois de voar Virgin America, ninguém consegue volltar.)
Me escrevam, ok? Façamos planos.
Algumas referências só fazem sentido no contexto de NYC, mas acho que tem algo de UNIVERSAL nisso tudo.

Saiam daqui agora e vão comprar ingressos antecipados para a estréia de Superbad (IMDb, trailer não muito bom, site oficial). Melhor comédia em ANOS. Confirmou a minha decisão de assistir a toda e qualquer coisa em que apareça o Michael Cera, ainda que seja sempre o mesmo personagem com as mesmas roupas horríveis.
San Francisco estava ótemo, conto mais tarde.