Acho que eu gosto desse lance dos guetos de NYC, das pessoas se aglomerarem por nacionalidade, cultura ou whatever. Enquanto caminhava pelo parque perto da minha casa às 9 da noite de uma segunda-feira eu percebi que tinha tanta coisa acontecendo naquele lugar naquela hora; aula de break dance do lado de umas 70 pessoas caminhando na pista iluminada enquanto várias outras pessoas estavam sentadas nos bancos lendo ou conversando no celular, um grupo de jovens vestidos com armaduras medievais quase de verdade praticavam alguma luta bizarra, hipsters jogavam futebol e velhinhos poloneses enfileirados falavam mal de tudo e de todos. Depois da minha caminhada, eu parei na McCarren Pool, uma piscina desativada ao ar livre onde agora acontecem shows, pra assistir à estréia de um documentário sobre a equipe de nado sincronizado dos EUA nas Olimpíadas de 2004. Acho que tinha umas 50 pessoas lá.
Não era uma mistura incrível de tribos e nacionalidades. Mas era a única razão pela qual tudo aquilo tava acontecendo ao mesmo tempo naquela noite de segunda-feira: algumas comunidades informais (eu desconfio que 2 ou 3) que se formaram em torno daquele parque são unidas o suficiente para, entre si, usar aquele parque pra o que quer que seja que elas estejam afim.
É claro que tem uma administração local que proporciona essa infraestrutura. Mas, se não tem uma comunidade que também toma iniciativas independentemente dessa administração local, nada de bom acontece, por melhor que essa administração seja. Os guetos são comunidades muito fortes que se organizam pra que essas coisas aconteçam, por mais excludentes e falhas que sejam. Se fosse tudo misturado, não aconteceria, não existiriam comunidades fortes. Os guetos sabem disso, por isso são tão defensivos quando são invadidos.
Não tenho nenhuma referência de algo assim no Brasil. Alguém tem?

Mas, também, eu marco facinho. In other news, acabo de consertar o freio da minha bicicleta. Mamãe jamais acreditaria. E até hoje não faço idéia de como funciona um carro.
Inventei que queria pedalar até o trabalho hoje (= Brooklyn > Queens > Manhattan). Quando cheguei no Queens, o trânsito de caminhões e SUV’s era infernal, e eu peguei câncer de pulmão. Minha saia prendeu na roda de trás da bicicleta, eu tentei arrumar e caí com bicicleta e tudo no meio da rua. Meu joelho tá esfolado, minha saia rasgou, a parte interna da coxa tá inchada e dolorida e eu não consigo cruzar as pernas, meu pé que torce sempre torceu, um dos freios parou de funcionar e eu achei melhor voltar e deixar a bicicleta em casa e pegar o trem. Fazia mais de 15 anos que eu não botava um band-aid no joelho. Ainda por cima, eu não encontrei band-aids da Disney em casa ou na farmácia.
Já não sei quanto tempo faz que em Nova York a cultura de locomover-se de bicicleta é encorajada pela prefeitura, mas sei que esse ano PEGOU, acho que especialmente por causa da crise do petróleo. O que é ótimo, pois as ruas de NYC são planas na sua maioria, perfeitas pra andar. Ajudou bastante que MUITAS ruas ganharam uma faixa somente para bicicletas, e assim ficou fácil de fazer um trajeto longo sem sair dessas partes reservadas. E continuam instalando hacks especiais para acorrentar as bicicletas; é só deixar ali, ir trabalhar e voltar no fim do dia.
Mas quem adota essa rotina enfrenta dois problemas. Um é que bicicletas são fáceis de roubar, e difíceis de se recuperar. Esses caras até fizeram um vídeo onde roubaram as próprias bicicletas várias vezes em pontos diferentes da cidade, pra mostrar que não demora nada, não requer prática nem habilidade e ninguém vai te prender.
As lojas de bicicletas daqui vendem uma grande variedade de correntes e cadeados para evitar esses problemas, mas poucos evitam que um cara com um MARTELO leve a tua bicicleta. Para isso, um dos fabricantes criou a coleção de correntes e cadeados New York. São cadeados de aço que custam em média US$100 e pesam no mínimo 5 quilos, tão pesados que as pessoas levam enrolados na cintura ou atravessado no ombro, pra não perder muito o equilíbrio da bicicleta. São bem mais difíceis de se cortar, mas não impossíveis, e às vezes os ladrões entortam toda a tua bicicleta acorrentada, por maldade ou insistência. Por muitos motivos, esses cadeados não são fáceis de se encontrar fora da cidade.

Kryptonite - New York Fahgettaboudit®. Comprei o meu, espero não cair da bicicleta por causa dele.
O outro problema é que os motoristas ainda não estão muito acostumados com o fluxo de ciclistas, além de serem naturalmente toscos. Por causa desses acidentes foram criadas as tais ghost bikes, bicicletas pintadas de branco acorrentadas em postes perto de locais onde ciclistas morreram no trânsito.
Existe muita pressão por aqui para que as bicicletas ganhem tanto espaço quanto os carros e acidentes assim não aconteçam tanto. Critical Mass é um grupo sem núcleo específico que inspira locais a organizarem grupos de ciclistas em horas e locais determinados para invadir as ruas e impedir o fluxo do trânsito dos carros. Deu baita confusão quando um vídeo de um policial derrubando e prendendo um ciclista que participava de uma dessas ações na Times Square provava que o pobre coitado não tinha feito nada, ao contrário das alegações da polícia que dizia que ele tinha provocado. A polícia não gosta muito dessas manifestações porque elas acontecem sem permissão, o que é contra a lei municipal. O grupo defende que a constituição proíbe que sejam criadas leis regulando que as pessoas se reúnam na rua de forma pacífica.
Acho que os dois lados estão exagerando, mas acho que faz sentido que exista um movimento de defesa das bicicletas nas ruas numa cidade que, de tão engarrafada, já tava pensando em multar carros particulares que circulassem pela ilha em determinados dias da semana.